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20/02/2006 16:24
Fiquei passada...
Logo abaixo desta breve introdução está um texto publicado hoje pela Folha de São Paulo. Fiz questão de colocá-lo aqui não em razão do fato de dois jovens negros terem sido deixados numa rua do Rio de Janeiro mutilados e um deles teve a cabeça exposta sobre o capô. Isso foi o que me conduziu a ler a matéria. Achei que o absurdo terminava aí, no fato de que a violência carioca ainda consegue me surpreender. Mas estava enganada. O que mais me chocou na reportagem (e a deixo aqui para dividir meu inconformismo) foi a naturalidade com que estudantes, trabalhadores e senhoras de idade encararam o crime, resumindo-o em coisa normal.
Tráfico expõe jovem decapitado no Rio
ELVIRA LOBATO
da Folha de S.Paulo
Quem passasse ontem pela rua Dionísio Fernandes, no Engenho de Dentro, zona norte do Rio de Janeiro --bairro onde está sendo construído o Estádio Olímpico João Havelange, para o Pan-2007--, não suspeitaria que a rua pacata, de calçamento de pedras e casas antigas, algumas remanescentes do século 19, tinha sido palco de uma cena de horror no início da madrugada.
Perto da meia-noite, quando a atenção dos moradores estava voltada para a transmissão do show dos Rolling Stones, um automóvel Honda Fit foi abandonado na rua, com uma cabeça sobre o capô, e os corpos de dois jovens negros, retalhados a machadadas, no interior do veículo.
A reação dos moradores foi tão chocante como as brutais mutilações. Vários moradores buscaram seus celulares para fotografar os corpos, e os mais jovens riram e fizeram troça dos corpos.
Os próprios moradores descreveram a algazarra à reportagem. "Eu gritei: Está nervoso e perdeu a cabeça?", relatou um motoboy que pediu para não ser identificado, enquanto um estudante admitiu ter rido e feito piada ao ver que o coração e os intestinos de uma das vítimas tinham sido retirados e expostos por seus algozes.
""Ri porque é engraçado ver um corpo todo picado", respondeu o estudante ao ser questionado sobre a causa de sua reação. Uma jovem, também estudante, disse que acompanhou a cena ao lado dos vizinhos, mas que, ao contrario deles, sentiu náuseas.
Segundo os policiais do 26º DP, onde o caso foi registrado, os corpos não foram identificados, e o carro tinha sido roubado no próprio bairro, dias antes. As vítimas seriam moradores da favela Camarista Meier e teriam sido executados pelo Comando Vermelho em razão de dívidas com o tráfico.
Os corpos, segundo os moradores, ficaram expostos por quase quatro horas, até serem levados para o Instituto Médico Legal.
Ninguém da vizinhança ouvida pela reportagem da Folha demonstrou revolta ou surpresa com as mutilações. Os mais velhos disseram ter olhado para a cena sem surpresa, pois a violência se tornou banal na região.
"Cheguei à rua à 1h, vindo do samba, e vi a cabeça em cima do carro, e muitos vizinhos em volta. Fiquei tranqüilo. Essa é uma coisa normal hoje em dia", resumiu um taxista de 40 anos, que também não quis se identificar à reportagem, e que levava o filho de cerca de 10 anos pela mão. Uma senhora de cabelos brancos, que lavava a varanda da casa com uma mangueira, concordou com o taxista. "É normal, é normal", repetiu.
De acordo com moradores, os jovens foram mortos por não terem pago pela droga que consumiram. A exposição da cabeça no capô do carro seria um recado dos traficantes para que outros não fizessem o mesmo.
enviada por Menina Jornalista
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