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02/03/2006 14:44

Reflexões pós quarta-feira de Cinzas...


Estou com a cabeça cheia de considerações sobre a morte, a vida, os desejos, a busca constante por paixões, a conquista ou não da felicidade.

Meu tio morreu. Irmão mais velho de minha mãe, passou mal no fim de semana de carnaval e, acometido por um AVC (tipo de um aneurisma) foi enterrado já no domingo, em Andradina, interior paulista, para onde foi sem avisar ninguém.

Minha mãe o escolheu para ser meu padrinho quando fui batizada, antes mesmo que eu aprendesse a falar ou andar. Sua imagem para mim é um rebuscado de informações sobre como não devemos proceder em vida. Filho querido (e quiçá predileto) de minha avó, nasceu como todos os outros seres humanos: repleto de sonhos e desejos.

Lembro-me que queria ser piloto. Tinha várias réplicas de aviões em sua casa. Achei que seria, mas o máximo que conseguiu foi tornar-se motorista. Não que eu esteja desmerecendo seu trabalho, só que tenho em mim uma válvula anticonformismo e considero que as pessoas, com esforço, dedicação, foco e vontade, podem ao menos chegar perto de seus sonhos de infância.

No campo pessoal terá muitas coisas a evoluir. Abandonou mulher e filho movido por paixão. O argumento é válido quando não vem acompanhado de egoísmo em doses cavalares. Aliás, essa facilidade em abandonar as coisas sem maiores explicações perdurou como uma característica irrefutável de seu caráter.

Passei uns dez anos sem vê-lo, toda minha adolescência. Fui reencontrá-lo há pouco, quando acometido por dificuldades financeiras resolveu dar o ar de sua graça. Mais uma vez minha mãe o ajudou, como cristã, como irmã, como alguém que, apesar de tudo, o amava. Essas coisas que me provam a incondicionalidade inerente deste sentimento.

Almoçou comigo um dia, sentia nele um desejo quase que constrangedor em recuperar o tempo perdido. Foi mais um a me dizer o quanto sou parecida com meu avô, do qual tio Fernandinho herdou o nome. Partiu para o interior sem dizer adeus e mais uma vez sem agradecer coisa alguma feita para ele.

Agora acabou. Dele ficou um belo rapaz, primo que amo de paixão, minha madrinha que configura entre as pessoas mais queridas que conheço e o exemplo de uma vida, a meu ver, desperdiçada. Espero apenas que, por alguns instantes, ele tenha encontrado a felicidade.

Paulinha
enviada por Menina Jornalista






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